Hoje é: terça-feira 23.05.2017

Do pecado à liberdade

autor: testimonio

Conheci vossa publicação casualmente, na casa de amigos. Ao ler os depoimentos sinceros e dolorosos de outras pessoas, tive um verdadeiro baque. Imediatamente tomei consciência de que o que vivenciei há dezenas de anos deveria finalmente vir à luz do dia. Será uma advertência para alguém? É possível que haja quem sinta aversão ou compadecimento. Que seja. Eu mesma tive muitas vezes estas sensações.

 Não assino nome e sobrenome por causa de minha grande vergonha, mas desejo partilhar com vocês a parte mais doída de minha vida. Poucas pessoas a conhecem, posso contá-las nos dedos de uma das mãos. Não é fácil para mim voltar ao passado, mas com a discussão sobre o aborto voltando como um bumerangue, desejo dar testemunho de minha verdade pessoal.

 

Já sou uma mulher idosa, quase aposentada e com não poucos bens adquiridos durante a vida. Tenho uma família feliz: marido, filho, netos, um bom emprego e algumas coisas materiais. Mas no fundo da alma continua presente aquilo que aconteceu há anos e que atormenta, voltando sempre e continuamente... Meu primeiro amor juvenil terminou numa forçada aceitação minha em fazer sexo, o que deu numa gravidez indesejada. Ambos estávamos na faculdade, éramos jovens e rebeldes. A respeito de minha situação, tive certeza somente no quinto mês, sendo já muito tarde para pensar em aborto. O parto e as circunstâncias que o acompanharam, as pessoas e o que passava era tão aterrorizante que quando engravidei pela segunda vez, meio ano depois, o que mais temia era a repetição daquilo que tinha experimentado no hospital. A tudo aquilo se misturou a influência de muitas pessoas, que aparentemente eram bondosas e tinham preocupação. As amigas e primas se lamentavam pela falta de uma moradia, de dinheiro e pela “pausa no currículo”. A ginecologista falava sobre maternidade responsável, das dificuldades para o organismo de uma “gravidez atrás da outra”. Assustaram-me com o uso dos medicamentos que tinha tomado anteriormente e no final ouvi também de outro ginecologista ao qual me dirigi as palavras: “Vamos dar à luz ou tirar?”. Assim mesmo, como se tivesse de decidir entre o sorvete ser de creme ou de chocolate.... Eu ainda tinha dúvidas, mas daí me falavam sobre “feto”, “aglutinação de células”, a possibilidade de um bebê que nasce tão próximo do primeiro ser danificado... E o que eu poderia garantir a esta criança?! Sentia-me o tempo todo culpada, mas ainda não estava percebendo a enganação! O meu jovem companheiro queria antes concluir os estudos (estava escrevendo sua monografia), e ainda por cima estávamos morando de aluguel. Dizia que era cedo demais para um segundo filho e que deixava a decisão para mim. Sentia sobre mim uma terrível responsabilidade, por mim mesma, pela criança nascida e pela ainda em gestação, pela felicidade daquele que amava. A família dele não se mostrava disposta em ajudar e a minha fazia continuamente cobranças do “desperdício da oportunidade de uma carreira científica” e da vida de “ajuntada” que levava. Daí nos enchemos de ambição e mágoa e não conseguimos procurar apoio.

 

Naquele tempo, ninguém mostrava fotografias ou filmes de bebês no ventre materno, não havia discussões, livros ou programas de televisão sobre este tema, pelo menos não tinha até então visto nenhum. Também não tinha tido sorte de encontrar em meu caminho pessoas que me segurassem, que dissessem “não faça isso” ou pelo menos “há outra saída”. O mundo inteiro se apresentava contra mim e meu bebê, eu era uma mãe acuada. Mas instintivamente sentia contrariedade, só que não conseguia fundamentar isto. A melhor amiga acompanhou a mim e ao pai de meu filho ao gabinete do médico que realizou o aborto, e que cobrou nosso dinheiro! Mas não quero com isto dizer que a culpa era dos outros e não minha. É claro, eu fiz a escolha: não dei ao meu segundo filho a chance de viver. Logo após aquele terrível “procedimento”, tal é o nome bonito que é dado, despertou-se em mim sensações horrorosas. Começou com um estranho vazio e torpor. O pensamento “o que foi que eu fiz?” me perseguia. Não conseguia olhar para o homem que amava, pois me causava nojo. Talvez o tenha culpado pelo que aconteceu, mesmo tentando tirar tal idéia da cabeça. Até hoje não entendo como pudemos com tanta facilidade matar aquela criança. O que é pior, quando olhava para o filho nascido antes ficava constantemente a me perguntar sem resposta qual seria o sexo e a aparência daquele outro bebê. Por que permiti que este vivesse e aquele não? Eu não havia tido até então problemas de saúde relevantes, mas depois do aborto surgiram disfunções hormonais. Várias vezes tive menstruações que duraram semanas, sem que o médico pudesse esclarecer quais seriam as causas. Aqueles sintomas passaram depois, mas o lamento permaneceu e aumentou. A tudo piorava o fato de não conseguir falar daquilo com ninguém. Tinha continuamente medo de não estar sendo uma boa mãe, pois alguém como eu simplesmente não poderia ser uma boa mãe.

 

Naquele tempo não freqüentava a igreja e achava-me uma pessoa sem fé. Não me dava conta também de que aquilo que estava passando era a síndrome pós-aborto. Somente depois de anos uma psicóloga me esclareceu no que consistia todo este problema e de que eu não era nenhuma exceção.

 

Minha relação com as pessoas próximas começou a ser marcada por desentendimentos. De uma pessoa tida por serena e tranqüila passei a ser um monte de nervos. Mesmo com a criança era ou cuidadosa demais ou agressiva, como se cobrasse dele por tê-lo deixado viver, já que o outro tinha morrido. Eu sonhava à noite com o aborto e acordava atordoada. Meu amado então dizia que eu deveria procurar um psiquiatra, pois estava ficando louca... Então não falava mais naquilo com ele. Meu desespero aumentava quando via na rua jovens mães empurrando carrinhos de bebê ou mulheres grávidas. Eu poderia ser uma delas, mas quis matar meu filho!

 

Enquanto aquilo tudo se passava, meu companheiro se interessou por outra mulher e eu, por vingança, comecei a traí-lo. Eu usava anticoncepcionais de suspensão oral que me causavam males ao aparelho digestivo e distúrbios no ciclo menstrual, acompanhados de grande desconforto físico e psicológico. Aos problemas existentes somaram-se outros, novos. Naquele tempo eu não conectava a idéia de “aborto” com a de “anticoncepção”, mas agora vejo que consistiam numa coisa só. Na fonte de minhas infelicidades estava a falta de fé em Deus, o orgulho e o egoísmo. Mas naquela época eu achava que era o ser mais infeliz do mundo e que para mim não havia mais nenhuma esperança. Entretanto, não havia nisto tudo nem humildade nem arrependimento, somente revolta e mais manifestações de orgulho.

 

Vieram dias em que eu achava que não valia a pena viver. Era uma derrotada como mãe, companheira e mulher. Além disso, a minha união, que era para mim a coisa mais importante do mundo, desmanchou-se como um castelo de cartas. Decidi me suicidar. Pensei em tudo: mandaria o filhinho para a casa dos avôs dele para passar dois dias, ficaria sozinha em casa e me mataria. Se meu amante de então não tivesse ido me visitar exatamente naquele dia ou se tivesse deixado a porta trancada, certamente não mais estaria neste mundo...

 

Mas fui salva e encaminhada para um hospital psiquiátrico. Lá ninguém deu importância às coisas que dizia sobre o bebê que tinha perdido. Certo dia perguntei diretamente ao médico por que anotava diversas palavras minhas, mas nada sobre o aborto. Ele respondeu que uma curetagem não poderia ser a causa de tal depressão e que deveríamos nos concentrar nas minhas relações com os pais e com homens. Não compreendi no momento que estava sendo mais uma vez enganada, mas senti que aquelas conversas não estavam dando em nada. Tive alta e voltei para o apartamento vazio, pois meu filhinho estava sendo cuidado pelos avôs dele. Não fui visitada nem pelo amante, nem pelo meu primeiro amado. Senti-me como uma velhota cansada e não sabia o que fazer consigo mesma. Sucederam-se alguns anos estranhos e horrorosos. Eu vagava entre o desespero e o desejo de esquecer tudo. Meu antigo companheiro tinha formado uma nova família, depois de divorciado e mais tarde casou-se novamente. Eu tinha medo da solidão, contraindo mais uma união sem sentido com um homem que, mais tarde, descobri que era um criminoso. Dele também engravidei e, como se não recordasse de tudo que tinha passado até ali, interrompi outra gestação. Dei-me conta tarde demais (pode ser que inconscientemente deixei a decisão de lado), mas aquele companheiro não queria saber de filho nenhum e achou logo um ginecologista que realizou o “procedimento”, na décima segunda semana de gravidez!

 

Vivia num vazio aterrorizante, tudo me parecia sem nenhum sentido e nada tinha expressão, nem mesmo o sofrimento. Assim deve ser o caminho para o inferno. Achava que a vida era um contínuo erro. Cheguei a julgar que estava agindo certo ao interromper a gestação, pois não sirvo para ser mãe, não consigo manter um relacionamento normal nem criar um lar. Achava também que o pai da criança não prestava para a paternidade, já que era um falsário que tinha me iludido, dizendo ser estéril, tudo para que eu concordasse em fazer sexo com ele. Somente depois veio à tona que, na real, o que ele queria era não usar preservativos... Meu fígado e meus rins já estavam tão danificados que estava impedida de tomar pílulas anticoncepcionais, e DIU, géis e preservativos femininos não poderiam ser aplicados por causa do desgaste interno com tendência a hemorragia. Foi assim que meu parceiro garantiu para si conforto na cama, a custo de minha saúde e da vida de nosso bebê...

 

Escrevo isto com muita dor, mas quando me decidi pela segunda vez em abortar não senti angústia, mas somente raiva e medo. Uma união baseada na mentira e no desespero não tinha como me dar força, daí ainda mais não queria posteridade dele. Ao pensar naquela criança e no desonesto pai dele, eu sentia apenas desgosto. Parece que cada um tem aquilo que merece e, sendo assim, estava com um homem que correspondia ao meu nível moral, totalmente degringolado. Aquele amante me enganou de diversas maneiras. Mas tarde fiquei sabendo que ele roubava e comercializava coisas furtadas. Tínhamos uma vida barulhenta, com alcoolismo, drogas e muitas festas... Eu dizia para mim mesma que não queria viver sozinha, mas não seria tudo aquilo simplesmente a mesma coisa?

 

Ao começar aquele relacionamento não tinha noção do preço que teria que pagar. As jovens garotas freqüentemente não se dão conta de quão facilmente deixam-se envolver com homens que realmente não as amam e que só querem seduzir e se aproveitar das mulheres. Estes jamais querem se responsabilizar por família, pela vida da criança que conceberam, pois a consideram o resultado de um erro, de uma imprudência ou somente “azar”, como dizia meu companheiro. Esta situação pode consistir na prova de que quando começa a se questionar um mandamento, torna-se muito fácil questionar outro, e assim todos. Da vida em comum com um homem sem contrair matrimônio, ou seja, cortando fora o “não cometa adultério”, entorpecida por ilusões a respeito do amor e da liberdade, passei facilmente à rejeição do mandamento “não matar”. A vida com um bandido e o estado de vazio e de desgosto que senti depois disto revelava-me uma repugnância de si mesma cada vez maior e a idéia de tirar a própria vida voltou. Quando me lembro daqueles tempos, e já se passaram daquela época 35 anos, fico surpresa de como pude suportar tudo aquilo em volta e em si mesma. Um enorme caos, perdição, enganação, vulgaridade, sexo sem sentimentos profundos, tudo aquilo aceitei durante bons anos. Talvez não acreditasse ser merecedora de algo melhor e inconscientemente tentava me castigar até o fim, acabar com aquilo que tinha começado durante as tentativas de suicídio. É até estranho que eu tenha sido capaz de me estragar tanto, de tanta indiferença moral, como se minha consciência tivesse secado, juntamente de todos os sentimentos mais profundos. Mas no final percebi que meu filho estava absorvendo alguns comportamentos de meu parceiro e isto me deu medo, levando-me finalmente a romper aquele relacionamento doentio. Um resto de responsabilidade salvou-me da queda definitiva e da destruição da vida de meu filho...

 

Não sei que milagre fez que eu conseguisse me separar tão rapidamente daquele bandido, encontrasse um emprego honesto e um teto sobre a cabeça. Acho que foi resultado das orações de minha tia, a única da família que acreditava em mim, e das possíveis orações de outras pessoas que me queriam bem, talvez até a intercessão de falecidos. Ou seria a intervenção de um santo? Não sei dizer. Tenho certeza de que não merecia ajuda, mas mesmo assim ela foi-me concedida. A graça divina  é algo inconcebível. Mas não tive facilidades, pois a idéia de cometer suicídio freqüentemente voltava. Quando fiquei sozinha, era uma pessoa destroçada física e psicologicamente. Não consigo descrever exatamente minhas vivências, mas digo que vivi num inferno que durou por muitos anos. Até o momento que num dia antes da Páscoa não mais achava um lugar onde pudesse me enfiar e acabei entrando numa igreja. Cheia de medo repetitivo e de ansiedade, mas sentindo um impulso interior, dirigi-me ao confessionário. Primeiramente porque queria conversar com alguém que não me conhecesse. Não sei o que sentiu o padre que ouviu minha confissão, pois desde minha Primeira Comunhão havia desertado da igreja... Chorei o tempo todo, tendo momentos onde não consegui falar.

 

 

E assim iniciou-se minha conversão...

 Depois de um tempo, percebi que a base de todos os meus pecados era o terrível orgulho: eu queria decidir tudo sozinha, pois achava que sozinha tinha o direito de julgar aquilo que era bom ou ruim, o que poderia fazer e o que não, que estava livre para decidir sobre a vida e a morte minha e de meus bebês. Mesmo ter concordado com todas as enganações envolvendo modo de vida, “amor” e abortos, queda nas garras de um sedutor e pessoas interessadas principalmente que eu agisse do modo que lhes fosse mais agradável, tudo aquilo era obra do orgulho. Não quero agora avaliar a participação de outras pessoas (que Deus me perdoe) nestas trágicas complicações de minha vida, mas às vezes sinto uma grande mágoa daqueles que estavam à minha volta. Freqüentemente me indago: Por que não fui mais sábia, honesta e casta? Por que tive de experimentar tanto horror e condenar a morte dois bebês meus? O que está acontecendo com eles agora? Será que há perdão para meu pecado? Isto me aterrorizou durante anos e mesmo até hoje não passou. Tenho impressão de que quando as pessoas encontram-se diante de decisões dramáticas o mal concentra toda sua energia, tentando dificultar as opções, falsificar a realidade, querendo simplesmente iludi-las. Este é o resultado de minhas experiências e conversas, que mais de uma vez travei com mulheres que também realizaram aborto. A consciência da irreversibilidade de meus atos e a impotência diante deles gera o sentimento de culpa e pode destruir a esperança e a dignidade, levando com facilidade à depressão e ao suicídio. Certa vez caiu-me nas mãos um pequeno livro de autoria do Pe. Jacek Salija OP, tratando do que realmente é o aborto. Somente assim pude ver com toda clareza a repugnância do meu ato e pude perceber com profundidade aquilo que fizera. Mas depois daquilo que antes me empurrava ao suicídio, veio algo que era novo: a humildade. Desejava pagar por aquilo, fazer penitência por aquele pecado, advertir a outras mulheres e homens antes dele – mas vi, entretanto, que isto é impossível. Senti a solidão e pode ser que caísse outra vez em depressão, se não fosse a graça divina.

 

Durante mais uma das confissões queixei-me da sensação de que nada faz sentido e de que o pecado do aborto é grande demais para ser perdoado, no que o padre aconselhou-me participar de um retiro. Nos dias de recolhimento tomei consciência de que continuava cometendo o pecado do orgulho, pois a misericórdia divina é maior do que os meus pecados. Além disso, entendi que não fora juiz e carrasco de meus bebês somente, mas também uma das vítimas – uma vítima deste sistema desumano que permite que mães sejam ludibriadas ou corroídas de medo e solidão e que seja praticado o assassinato de crianças que ainda não nasceram sob a majestade da lei. Houve dias que queria sair rua afora, gritando: “Devolvam-me meus bebês!” Às vezes não queria mais viver...

 

Mas o Bom Pastor encontrou uma consolação para mim e me mostrou que tenho que cumprir minha incumbência: como mãe de um filho vivo e como uma pessoa que através da oração e da adoção espiritual pode ajudar a outras crianças ameaçadas pelo aborto. Esta missão traz consigo alívio, apesar de muitas vezes eu chorar ao pensar no passado. Mas Deus tem piedade, mais do que podemos julgar, e dá graças mesmo ao pior dos pecadores. No outono de minha vida deu-me conhecer o verdadeiro amor do ser humano. Há alguns anos encontrei um homem, bom e nobre, também convertido depois de ter passado anos de sua vida numa seita e na erracidade. Casamos-nos na Igreja e somos hoje um casal muito feliz, experimentamos o poder do sacramento e do Espírito Santo. Finalmente cri que posso amar e ser amada. Meu filho chama a meu marido de pai. O marido sabe toda a verdade de meu passado, apesar de eu ter temido muito no início de que ao reconhecê-lo nosso relacionamento acabasse. Entretanto, mesmo depois de tantas quedas, aceitou-me como sua futura esposa.

 

Às vezes, penso com muito medo sobre o Juízo Final, onde posso ser acusada pelos meus filhos que não nasceram, mas resgata-me a confiança na misericórdia de Deus. Foi um grande sofrimento e cruz para mim a notícia de que não mais poderia ter filhos. Tanto eu quanto o marido desejávamos descendentes, mas Deus visivelmente decidiu que não terei mais esta oportunidade, já que duas vezes renunciei de livre vontade... Pode ser que simplesmente seja a conseqüência de problemas de saúde e da idade, pois nos casamos quando já tinha trinta e tantos anos? Um abalo a mais foi a informação, logo após o casamento do filho e nascimento do primeiro neto, de que minha nora também fizera um aborto quando era adolescente. Iludida por um colega da escola da eficácia “garantida” da camisinha e das pílulas espermicidas, mesmo assim engravidou. Sabe-se já não de hoje que a indústria destes produtos devora na bobeira e ingenuidade da juventude... A minha nora  temia problemas e gozações, expulsão da escola, opiniões negativas e a raiva dos pais, assim entregando-se facilmente às dicas do namorado que arranjou dinheiro e tudo “resolveu”. Jamais dissera algo sobre aquilo mesmo à sua mãe. Quando me contou tudo, choramos juntas.

 

Escutando esta história pensei que não faltou muito para nos salvar ambas de ter escolhido a morte. Se uma palavra tivesse sido dita no tempo certo o mal poderia ser evitado, mas ninguém a disse, infelizmente... A minha nora vivenciou semelhantes dúvidas, depressão e fossa do mesmo modo que eu, mas fé em Deus, contrição, oração e felicidade matrimonial estão curando-a, tenho esperança, da tristeza. Procuro dentro de minhas possibilidades tirar o aborto da cabeça das mulheres que estão ao redor, falando-lhes no que consiste dar este passo e quais serão as consequências.

 

Mas sei que tudo isto é muito pouco, daí esta carta. Não disse a meu filho o que fiz no passado, simplesmente não consegui fazê-lo. Isto também demonstra que ato terrível é o aborto, que remove algo tão fundamental como o direito à vida e maternidade, a natureza da mulher. Será que meu filho continuaria me amando e confiando seus dois próprios filhos se soubesse que tirei dele a oportunidade de ter irmãos? Ele sempre fez queixas de ter sido filho único... Tenho medo de que se reconhecer a verdade sobre os abortos tudo mude no relacionamento dele para comigo. A mulher dele foi verdadeiramente perdoada, mas a mãe cada um quer ver como uma mulher pura, honesta, amorosa, preocupada e cuidadosa, e não pronta para matar seus filhos. E tanto o padre como a psicóloga aconselharam-me a não sobrecarregar o estado psíquico de meu filho com minhas vivências.

 

Não faz muito tempo conversei na rua com certa jovem feminista, que defendia o “direito” das mulheres ao aborto. Não aceitou nenhum argumento, até que acabei perguntando se alguma vez conversou com alguém que estivesse pronta a se suicidar por causa do aborto. Respondeu-me que não, pois não há tais mulheres. Nisto eu, sem pensar duas vezes, disse-lhe as palavras que saíam diretamente do coração: “Você está conversando com uma dessas mulheres. Você está defendendo mais suas decisões anteriores em abortar do que a liberdade de escolha. A escolha existe somente quando são conhecidos seus efeitos. E não podemos falar que matar é um direito das mulheres”. Não sei o que me fez dizer aquilo, mas o efeito de minhas palavras foi assustador: minha interlocutora empalideceu e fugiu, sendo visível no rosto dela o pânico, pois tornei seu segredo exposto, o verdadeiro motivo de sua mundividência feminista. Eu sei que mulheres depois do aborto tornam-se freqüentemente amargas, odiando a si mesmas; daí nasce a inveja daquelas que tomaram a decisão de dar à luz seus filhos.

 

Ninguém quer se sentir mal, sempre desejamos justificar nossos atos, por isso as mulheres que fizeram aborto debocham seguidamente das outras que estão grávidas ou das famílias de muitos filhos, abismando-se com o absurdo e “atraso” destas pessoas. Estas também são algumas características da fonte falsa do feminismo, o cuidado em manter um papel de asco ou de vítima dos homens. É como uma “escalada” em linguagem militar: o mal é vingativo e contamina, passando às gerações futuras. Conheço bem tudo isso, pois eu mesma cultivei tais sentimentos. Mas Deus acaba nos permitindo ver toda a verdade sobre si mesmos e nos dá seu perdão. Somente Ele, e nenhum médico, psicólogo, psiquiatra, familiar querido ou amigo tem este poder. As pessoas podem ser apenas ferramentas do Criador. Experimentei este perdão de Deus e eu mesma tento perdoar: os homens que displicentemente conceberam as crianças comigo e que não as quiseram e não lutaram por suas vidas, pois queriam somente “se livrar de incômodos” que atrapalhariam seu conforto e diversões; os médicos, que não me disseram a verdade sobre o que é o aborto e que conseqüências traz consigo, mas por dinheiro ofereceram a morte de meus filhos e me convenceram a fazê-lo; o terrível, brutal, corrupto e cruel obstetra, as enfermeiras e os médicos do hospital onde em condições desumanas e num clima de campo de concentração dei à luz meu primeiro filho, o que causou em mim medo e trauma face a futuros partos; os autores dos folhetos e artigos que fazem propaganda de métodos anticoncepcionais, que não são tão eficazes como se pensa; as amigas que me indicaram usá-los e depois a “fazer uma raspagem”, como se fosse um método normal, comum e prático de “solucionar este problema”; os vizinhos e a família, que com fofocas olharam com indiferença e maldade as dificuldades de um jovem casal com um filho pequeno e outro “a caminho”; os padres e os chamados fieis, que pouco ou inconsistentemente falaram destas coisas em minha juventude; os proprietários do apartamento que aluguei, que não queriam saber de crianças pequenas; e a mim mesma, uma egoísta boba, ingênua, perdida e incapaz, cheia de medo e arrogante em seu “direito” à liberdade de decidir tirar a vida de uma outra pessoa: de meu próprio filho e de mim mesma.

 

O pecado é verdadeiramente uma morte, eu mesma a experimentei dos piores modos possíveis, permitindo o assassinato de meus filhos e tentando o suicídio. O pecado leva a querer a morte, a morrer física e espiritualmente. Uma psicóloga com a idade de minha nora, para quem me dirigi há alguns anos por sugestão de meu marido, depois de dezenas de anos após os abortos me tirou da depressão e do sentimento de culpa. Certa vez disse-me que o ser humano precisa de algo maior de si para que tenha alguma perspectiva, algum ponto de apoio. Sem isto somos como gotas jogadas aqui e acolá no vazio, sozinhos e perdidos. Ou como animais que devoram suas ninhadas. Somente a pouco tempo atrás compreendi aquelas palavras em plenitude. O encontro com Deus permitiu-me ver tanto a imensidão dos meus pecados quanto a imensidão da bondade de Deus, o Doador da Vida, que não quer castigar e destruir mas deseja resgatar os pecadores.

 

Eu agradeço pela minha vida, misericordiosamente salva apesar de tantas tentativas de destruí-la. Agradeço pela vida das pessoas próximas: marido, filho, nora, netos. Peço desculpas por não ter defendido a vida desde sempre, por não ter sido mãe para todos os meus filhos. Agora que meu filho tem seus filhinhos, resta-me ter fé que nenhum deles fará algo tão monstruoso como a avó  deles fez no passado, que nenhum deles carregará tão terrivel fardo até o fim da vida. Imploro às mães que têm duvidas do sentido de darem à luz seus filhos: não condenem seus próprios pequenos à morte física e vocês mesmas ao pesadelo que as perseguirá até o final de suas vidas! Foi dada a vocês a chance de viver, então deem também vocês aos seus filhos! Peço a todos que estão lendo o que escrevi: jamais proponham o aborto a ninguém e não fiquem em silêncio nem sejam indiferentes se ouvirem tal proposta! Mas também é importante algo mais e isto diz respeito a todas as pessoas: não reajam com estarrecimento, maldade, ironia, deboche, ridicularização e revolta ou impaciência se souberem que uma mulher está esperando um bebê, mesmo se for jovem demais ou já em idade avançada, solteira, incrédula, enferma, pobre e necessitada, pois mesmo se parecer a vocês boba e imprevisível, pouco séria para ser mãe. Se for tratada com compreensão e respeito uma vida será preservada.

 

Se minha carta ajudou alguém a tomar a decisão certa, se preservou pelo menos uma vida, ela cumpriu com sua incumbência e isto alivia-me a alma. Muito obrigada a aqueles que imprimirem minha carta e tratarem estes temas, tão dolorosos mas necessários. Minha mais cordial saudação. Que Deus abençoe as pessoas que fizerem minhas palavras ir adiante.

 

Uma avó arrependida

 “Uma especial atenção desejo conceder a vocês, mulheres, que permitiram-se na interrupção da gestação. A Igreja sabe o quão muitas são as circusntâncias que influenciaram em sua decisão e não duvida que, em muitos casos, tal decisão foi dolorosa, até mesmo dramática. Com certeza a ferida em seus corações ainda não cicatrizou. Em essência o que se sucedeu foi e é profundamente abjeto. Porém, não desistam nem percam a esperança. Procurem compreender e verdadeiramente interpretar esta experiência. Com humildade e confiança abram-se – se ainda não a fizeram – à penitência: o Pai de toda misericórdia aguarda por vocês, pois quer oferecer-lhes seu perdão e paz no Sacramento da Reconciliação. Vocês descobrirão que ainda nada está perdido e poderão implorar o perdão também de seu filho: ele agora vive em Deus. Apoiadas no conselho e no auxílio de pessoas caridosas e competentes, vocês poderão fazer de seu doloroso testemunho um argumento muito forte em defesa do direito de todos à vida. Através da entrega de vocês pela causa da vida, coroada com os nascimentos de novos seres humanos e consagrada para aqueles que mais precisam da proximidade de vocês, formarão uma nova forma de encarar a vida da pessoa humana”. João Paulo II: Evangelium vitae, 99.

 

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